A maldição do curto prazo (por Everton Gubert)

Mesmo de férias aqui no velho mundo, eu não poderia deixar de compartilhar com vocês um pouco das observações que fiz por aqui. E não teve jeito. Apesar de relaxado – afinal, estou curtindo as minhas férias com a minha esposa – não consegui conter o impulso de fazer correlações das coisas que vi funcionando tão bem aqui com o que já poderia estar bem melhor em nosso país e em nossas empresas.

Sei que alguns de vocês, de imediato, já devem estar com a seguinte frase pronta: “Mas a Europa é um continente mais velho e já resolveram seus problemas em virtude de sua experiência, e nós somos um país novo ainda com pouco mais de quinhentos anos”. Verdade! Mas faço uma reflexão: o que dizer dos EUA e da Nova Zelândia, para citar dois exemplos, que são países jovens, tal como nós, mas que construíram um nível de maturidade e espírito cívico muito superior ao nosso?

Então, voltando a comparação entre o modelo Brasil e Europa, bem como dessas nações jovens e prósperas, tenho que dizer a você que “me caiu uma grande ficha”. O que ficou claro é que a grande diferença entre eles e nós não está na idade, mas sim na sua capacidade de trabalhar o curto prazo alinhado com objetivos de longo prazo. Aqui na Europa fica claro que uma ponte construída hoje precisa servir a sociedade ao longo de dezenas ou centenas de anos. Uma mudança na cidade é justificada se ela impactar positivamente o futuro das próximas gerações.

Se olharmos para o nosso país podemos ter no próprio governo e sistema político um contraexemplo. Entra partido, sai partido e o que vemos é um plano de governo (ou de poder) focado nos quatro anos, ou seja, em como se reeleger na próxima eleição. As decisões são tomadas para benefícios imediatos em detrimento da construção de um futuro de país. É fácil ver! Pergunte-se: qual o plano para o Brasil dos próximos 50 anos? Infelizmente o longo prazo aqui fica em segundo plano. E o povo, a nação, que deveriam vir em primeiro lugar, ficam no fim da fila, literalmente.

Porém, e se olharmos a frase “Entre um governo que faz o mal e o povo que o consente, há uma certa cumplicidade”, dita por Victor Hugo, o que podemos pensar? Que um governo é a representação de uma sociedade, correto? Com certeza o governo não é exatamente a sociedade, mas tem muitas características impostas pela consciência coletiva. E a visão de curto prazo é uma delas.

Para tornar mais clara essa característica brasileira de aceitar mudanças (ou não mudanças) de curto prazo, convido você a pensar sobre a sua reação se um prefeito decidir mudar todo o fluxo das ruas da sua cidade e com isso seu caminho para casa ficar mais longo. Pensou? Acredito que o desconforto inicial nos coloca imediatamente a rejeitar tal ação. Pois foi isso que Jaime Lerner, um jovem prefeito de 34 anos, enfrentou em Curitiba, por anos. Esse governante tinha um plano de Estado, uma visão de longo prazo a respeito da cidade que naquele momento a sociedade rejeitou agressivamente, pois mudava o seu “conforto imediato”. Porém, Lerner teve resiliência e foco no longo prazo, e hoje a mobilidade urbana e a qualidade de vida é motivo de orgulho para a população local e exemplo para o Brasil.

E em relação às nossas empresas, como está o vínculo entre ações mais imediatas e planejamento de longo prazo? Nossos gestores têm clareza e foco no plano da próxima década ou buscam o conforto de decisões que beneficiam apenas o hoje? E você, na sua empresa, como faz suas escolhas como gestor?

Voltando a comparar, um estudo do McKinsey Global Institute revelou que, entre 2001 e 2015, as empresas focadas em estratégias de longo prazo tiveram crescimento médio de receita e de lucro respectivamente de 47% e 36% maiores, bem como acrescentaram ao mercado quase 12 mil empregos mais do que as rivais que apostaram exclusivamente no curto prazo. O estudo mostra ainda que essas companhias conseguiram um equilíbrio entre investimentos mais imediatos e aqueles que fariam delas mais longevas.

Ora, se pesquisas mostram claramente os benefícios da gestão de longo prazo, por que a maioria das empresas brasileiras, incluindo aqui o nosso agronegócio, ainda opta pelo curto prazo? Na minha opinião, a causa principal, sem dúvida, está na forma como as nossas lideranças vêm sendo formadas. Precisamos estabelecer novos níveis de consciência gerencial e de virtudes capazes de promover uma mudança de mentalidade.

De forma geral, o resumo da ópera é que para o Brasil se tornar próspero a agenda das nossas lideranças políticas e empresariais precisará conter mais visão de longo prazo, mais resiliência para continuar seguindo o plano e, principalmente, mais valores morais e éticos para permanecer dentro da linha de escolhas justas e que beneficiam a todos. Acredito que podemos ser jovens e ao mesmo tempo maduros. E você?

 

Fonte:
Artigo de Everton Gubert, fundador e diretor de Inovação da Agriness, para sua coluna “Ponto de Partida” na Revista Feed&Food. Publicado na edição de junho de 2018.

2 Comentários

  1. Cultura vem de casa, educação da escola! Escolas com currículos politizadas fazem um povo dependente do governo. No velho mundo as pessoas pedem informações e resolvem seu problema, aqui esperam que o governo resolva tudo ! Cultura geral no Brasil é fraca em opiniões. Gostei da sua publicação, parabéns.

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  2. Muito bem colocada a sua visão, penso que o nosso país por se habitado de várias origens, culturas e educação, tanto que a história conta que quem não era aceito na sociedade de alguns países eram encaminhados para cá, e para acertar as culturas e costumes, tem que haver um governo de verdade para o país e para o povo, com os governos pensando em manipular votos para manter-se no poder, fica difícil programar a curto prazo, a longo pior ainda, mas nada está perdido, tudo tem uma solução, basta cada um de nós ,fazermos a nossa parte.

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