Suinocultura, o que você vai ser quando crescer?

Suinocultura, o que você vai ser quando crescer?

“O que você quer ser quando crescer?”. Eu não imaginava que essa simples pergunta, que respondi algumas vezes na minha infância e que culturalmente fazemos para nossas crianças, fosse fazer tanto sentido na minha vida adulta. Quando jovem, ela representava o universo da profissão que eu deveria escolher. Hoje, depois de muitas experiências de vida e amadurecimento profissional, consegui ampliar o escopo e a dimensão desse questionamento. A minha versão adulta desta questão passou a ser: Qual é o seu propósito?

Essa ressignificação aconteceu observando a natureza. Percebi que há uma força invisível que orquestra diariamente bilhões de processos e relacionamentos com um objetivo muito claro: a conservação da vida. Se você, nesse momento, olhar para você mesmo, para seu filho, para sua cidade, verá essa maravilhosa engenharia acontecendo. E esse objetivo maior, essa força invisível, damos o nome de PROPÓSITO.

Bom, se o propósito é a grande força que rege as ações na natureza, não seria no mínimo prudente adotar o mesmo raciocínio em todas as demais coisas existentes? Não seria essa força a responsável por explicar o porquê de algumas pessoas desenvolverem uma vida com fluidez e outras necessitarem de um grande investimento de energia para se manterem em pé? Não seria a mesma explicação aplicada para uma empresa que tem sucesso e outra que não, mesmo estando no mesmo setor, região, acesso a recursos? Não seria essa uma das explicações para a situação de setores inteiros ou até mesmo de países?

Como estamos em época de crise econômica, política e moral, convido você a fazer a seguinte reflexão: qual seria o papel do Brasil no mundo enquanto nação? A qual propósito estamos servindo? O que o Brasil vai ser quando crescer? Para apoiar esta reflexão dou aqui algumas possibilidades: país do futebol; país do carnaval; país da biodiversidade; país da produção de alimentos; entre tantas outras possibilidades. Qual é a sua escolha? Qual é o papel que cumprimos no mundo?

Dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) apontam que a produção mundial de alimentos terá de crescer 20% para atender ao aumento da demanda já em 2020, sendo o Brasil o principal responsável por atender esse crescimento. Talvez, olhando este dado, você deve estar pensando que o próprio mundo está sinalizando ao Brasil que o seu propósito maior é ajudar a alimentar o planeta. A notícia ruim é que, apesar da oportunidade, não estamos atentos a esse chamado. Hoje trabalhamos praticamente sem uma visão estratégica a longo prazo e, de forma temerosa, com ausência de políticas públicas vigorosas para o agronegócio. Veja que a falta desse plano maior nos causa mais esforço para sobreviver e crescer.

Já que estamos refletindo sobre propósito, gostaria de lançar uma outra reflexão, um pouco mais próxima das nossas empresas. Não seria a falta de clareza de um propósito único para o setor de suinocultura uma das causas dos problemas que enfrentamos repetidamente?

Pergunto, pois olho para a nossa cadeia produtiva e vejo pessoas e profissionais incríveis trabalhando na atividade. Temos à disposição o que há de melhor em insumos (nutrição, sanidade, genética, equipamentos e gestão). Temos várias instituições competentes e empenhadas no trabalho de alavancar o setor. Temos universidades com excelência em conhecimento. Temos uma agroindústria forte, entre as melhores e maiores do mundo. Temos um sistema cooperativista muito bem desenvolvido. E, o mais importante, temos nossos suinocultores: empreendedores incansáveis que colocaram o nosso país entre os melhores do mundo em termos de produtividade. E mesmo assim sofremos ciclicamente com crises, hora provocada por preço do produto final, hora por aumento de custo de produção, ou pelas duas variáveis. Será que isso é “normal”? Será que é só uma questão de mercado uma vez que trabalhamos com commodity e não temos controle sobre a poderosa lei de oferta/demanda? Ou será que estamos sem uma coordenação que permita criarmos um propósito único que direcione os esforços de todos para minimizarmos estes impactos? Algo que nos impulsione a criarmos estratégias mais consistentes, de longo prazo, que una todo o setor e nos faça menos vulneráveis aos fatores externos e imprevisíveis, comportamento típico do mundo em que vivemos neste século.

Para termos uma referência positiva, podemos nos espelhar na Dinamarca. Olhando para os últimos 15 anos de relatório da Danish Agriculture & Food – uma espécie de MAPA do país – é perceptível que lá o Estado, produtores e empresas atuam com um pensamento estratégico e de longo prazo. Com certeza eles são guiados por um propósito claro, de ser o maior exportador de carne suína premium, e essa força orienta todos os atores da cadeia para uma direção comum. E os resultados todos conhecem!

Não estaria na hora de fazermos um pacto no setor, unir definitivamente todos os elos e construir um propósito capaz de nos orientar em uma direção comum? Será que poderíamos trabalhar com alternância de lideranças e a manutenção de um plano maior, onde o objetivo seria o fortalecimento do setor como um todo e não apenas uma solução imediata ou benefício de um determinado grupo? Seria isso viável ou apenas um olhar otimista, ou até utópico?

Definitivamente, não tenho a resposta. O que tenho é a certeza que, como a natureza nos explica, os organismos com maior chance de prosperar são aqueles em que as partes funcionam juntas, coordenadas e orientadas por um objetivo único, o propósito. Isso me dá a certeza de que quando a suinocultura definir “o que queremos ser quando crescermos” teremos maior força para minimizar impactos de crises e de governos não competentes.

 Referências Bibliográficas:

Cortella, Mario Sergio. Qual é a tua obra? Inquietações propositivas sobre gestão, liderança e ética. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2007.
Danish Agriculture & Food Council, Pig Research Centre. Annual Report 2014. Dinamarca, 2014.
Mattos, T. VLEF – Vai lá e faça. Disponível em: <http://assets.perestroika.com.br.s3.amazonaws.com/vlef/vlef.pdf>. Acesso em: 1 ago. 2016.
Tolle, Ekahart. Um novo mundo: O despertar de uma nova consciência. São Paulo: Editora Sextante, 2007.
Wheatley, Margaret J. Liderança e a nova ciência. São Paulo: Cultrix, 1996.

Fonte:

Artigo extraído da Revista Feed&Food, edição Setembro/16, escrito por Everton Gubert, fundador e diretor da área de Inovação da Agriness.

1 Comentário

  1. Excelente texto Everton! Com essas sábias palavras você lança o desafio para todos os elos da cadeia de suínos: definir um propósito e unir forças para alcança-lo. Afinal, “se você não sabe aonde quer chegar, qualquer caminho serve.” (Lewis Carroll). Abraço

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