Um negócio com alma (por Everton Gubert)

Um negócio com alma (por Everton Gubert)

Definitivamente não consigo conceber a criação e a operação de um negócio que não tenha sido criado com um propósito muito claro. Este ano estou completando 20 anos desde a criação do meu primeiro negócio e lembro claramente que, quando criei a minha primeira empresa, nem passava na minha cabeça a importância do propósito na vida de uma companhia. Na época, a minha orientação, alinhada com o pensamento vigente, era a de montar um negócio para ganhar dinheiro, ponto.

O bom é que aprendi a lição muito cedo e aquela minha primeira empresa não deu certo, não prosperou e tive que fechar. E foi a partir dessa experiência (difícil para mim na época) que aprendi uma das minhas primeiras lições como empreendedor: um negócio precisa ter propósito, precisa ter significado, precisa ter alma. Se assim for e se você trabalhar direitinho, as chances de se obter um retorno financeiro serão maiores.

Somado a isso, com a tecnologia de informação disponível para quase todos, atualmente a nossa sociedade está muito mais informada e, assim, mais exigente. As novas gerações chegaram trazendo vários pré-requisitos para uma empresa ser admirável. As pessoas querem cada vez mais companhias responsáveis socialmente, ambientalmente, com clareza de propósito e, claro, que sejam e façam o bem. As marcas e os produtos são escolhidos como consequência disso. E este posicionamento, de agora em diante, estará ligado diretamente com a sustentabilidade e longevidades das empresas.

Neste sentido, aqui no Brasil nós temos dentro do nosso agronegócio um modelo de organização que serve de exemplo para o mundo todo e que deveria ser um orgulho nacional: as cooperativas. Como a maioria delas nasceram há algumas décadas, não saberia dizer se na época elas tinham consciência do quanto o propósito em sua criação se tornaria hoje uma de suas grandes fortalezas. Digo isso porque a maioria foi criada com o propósito de união, de cooperação, de trabalho conjunto para o bem comum e para o desenvolvimento dos envolvidos. Ou seja, existe um grupo de valores e princípios decorrentes deste propósito que formam a cultura dessas organizações e as tornam diferenciadas ao longo dos anos. Obviamente que é o trabalho de cada um dos seus associados que produz riqueza, mas é a cultura que os une.

Os resultados todos nós estamos vendo por aí. Em praticamente todos os cantos do Brasil encontramos histórias de sucesso e desenvolvimento nos grupos que têm como guarda-chuva uma organização cooperativista. Particularmente, tenho a honra de conhecer e trabalhar com dezenas de cooperativas e de testemunhar o desenvolvimento delas ao longo das últimas duas décadas. Durante este período, todos nós passamos por momentos difíceis em virtude, especialmente, da volatilidade de nosso País e da falta de um governo mínimo, mas praticamente todas estão vivas, cresceram, amadureceram, se atualizaram e são exemplos de desenvolvimento e sustentabilidade.

Os grandes beneficiados disso tudo são o produtor e o consumidor. O produtor que, junto com seus pares, consegue ter acesso à informação, tecnologias e custos de insumos, onde individualmente teria muita dificuldade para obter e, por consequência, consegue ser mais produtivo e competitivo. E o consumidor que recebe produtos produzidos do campo até a indústria por meio das melhores práticas e das melhores matérias primas para garantir a qualidade e a segurança alimentar. Por consequência, a cereja do bolo é que via de regra os produtos são desenvolvidos por pessoas felizes, do bem e que amam aquilo que fazem.

Percebo claramente a atmosfera do propósito e a força da cultura e da alma dessas organizações nas relações entre as pessoas. Desde o presidente (que , salvo exceção, é um produtor), seus diretores, passando pelo corpo técnico e pelos produtores, há essa força que os direcionam para um objetivo único. Por isso eles sabem o porquê querem crescer e por isso eles continuam crescendo, felizes e unidos.

Fonte:
Artigo de Everton Gubert, fundador e diretor de Inovação da Agriness, para sua coluna “Ponto de Partida” na Revista Feed&Food. Publicado na edição de agosto de 2018.

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