Pregação para convertidos (por Everton Gubert)

Queridos amigos, o tema deste mês teve dupla inspiração. A primeira veio de um grande amigo, Alvimar Jalles, médico veterinário e um dos melhores profissionais da suinocultura brasileira, que me falou sobre “pregação para convertidos”, expressão que eu nunca tinha ouvido e que achei fantástica e apropriada para muitas situações. A segunda veio de um episódio recente que aconteceu comigo e que acabei correlacionando com essa expressão.

Estive reunido com o time de marketing de uma grande empresa que ainda não atua, mas está querendo entrar no setor de agronegócio. Eles desenvolveram uma excelente solução que pode ser aplicada no agro, especialmente na suinocultura e avicultura. Na reunião falávamos sobre a dinâmica dos dois setores, avaliando de que maneira eles poderiam fazer essa entrada. Tudo ia bem até que uma pessoa presente levantou um ponto contrário à entrada da empresa no agro através do setor de produção animal, e, sem querer, acabou me dando um grande presente, pois me levou a uma profunda reflexão, que materializo neste artigo.

Em um primeiro momento aquele posicionamento me deixou um pouco desconfortável, mas logo percebi que estava tendo a oportunidade de ouvir a opinião de uma pessoa completamente diferente daquelas com quem convivo e que, de forma geral, são ligadas ou de dentro do agro: uma profissional de marketing, com seus vinte e cinco anos, urbana, sem nenhum contato com o campo. Para ela a empresa não deveria entrar no agro através de uma indústria que mata animais, pois isso poderia afetar a imagem e a reputação da marca no mercado, visto que se trata de uma empresa muito grande e de capital aberto.

Como falei, fiquei inicialmente incomodado com a colocação dela e posicionei que o nosso setor não trabalha para matar animais, mas para produzir alimento saudável e de alta qualidade para alimentar as pessoas. Foi aí que caiu a ficha para mim, sobre quanto nós do agro precisamos comunicar à sociedade o valor do nosso trabalho e a forma como trabalhamos, mas de uma maneira completamente diferente. Percebi que não temos sido eficientes nessa comunicação e que, na maioria dos casos, fazemos pregação para convertidos.

Todos os anos realizamos centenas de eventos do agro no Brasil inteiro, mas quem participa desses eventos? Para quem falamos sobre produção sustentável, bem-estar animal, sustentabilidade, uso racional da terra e dos recursos hídricos? Quem é o público do programa rural de canal aberto com maior visibilidade da televisão brasileira? A grande maioria, só pessoas do agro.

Não se fala que o pessoal do agro só sabe trabalhar? Somos tão focados em fazer acontecer, com uma dedicação fora do comum em produzir alimentos, que esquecemos de “vender” exatamente isso, de falar de nós, do valor que o nosso trabalho gera para a sociedade. Hoje em nosso país praticamente 85% das pessoas vivem nas cidades e a maioria delas nem sabe como o leite foi parar dentro da caixinha no supermercado. Por outro lado, centenas de ONGs – patrocinadas por dinheiro de países que se sentem ameaçados com a nossa pujança no agro – vendem a ideia de que o agro brasileiro desmata, polui e mata animais.

O resultado disso é que estamos produzindo uma inversão na percepção de como as coisas são e, especialmente os nossos jovens (como a moça da reunião), estão sendo aculturados com o mapa mental de que o agro não é um setor do bem. Isso tem ganhado tamanha proporção que já teve até escola de samba fazendo críticas ao agro. Simplesmente o agro foi tachado como vilão no maior evento popular do Brasil, onde o foco da mídia é gigante e supera as fronteiras do nosso país. Enquanto isso, continuamos mostrando as coisas boas que estamos fazendo, mas somente para quem já sabe disso.

O convite que deixo é para começarmos a melhorar a forma como comunicamos o valor que geramos para a sociedade, especialmente para grupos e pessoas que não conhecem o nosso setor. Senão, continuaremos vendo o país do carnaval – que é sustentado pelo agro – falar mal do próprio agro. Gratidão à moça, que me trouxe esse outro ponto de vista. Foi para mim uma oportunidade de ver que, no fundo, somos nós os responsáveis por deixar isso acontecer.

 

Fonte:
Artigo de Everton Gubert, fundador e diretor de Inovação da Agriness, para sua coluna “Ponto de Partida” na Revista Feed&Food. Publicado na edição de maio de 2019.

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